13 de set de 2011

Um pouco sobre Vygotsky



1.Construindo sua vida

Lev Semenovich Vygotsky, nasceu em Orsha, a 17 de novembro de 1896, na pequena Bielo-Rússia. Mas quando tinha um ano de vida sua família mudou-se para Gomel, onde viveu com seus pais e com seus sete irmãos. Sua infância se deu no seio de uma família judia de posses, o que constituiu uma fonte de estímulo para sua atividade cultural e intelectual. Aos 28 anos, casou-se com Roza Smekhova, com quem teve duas filhas. Precocemente, faleceu aos 37 anos, na noite de 10 para 11 de junho de 1934, vítima de sua companheira de catorze anos: a tuberculose.
A educação de Vigotsky transcorreu em seu lar até seus 15 anos, a cargo do matemático Solomon Ashpiz que dava aulas para alunos adiantados. Sua dedicação aos estudos e à leitura incentivam-no a dirigir-se a biblioteca pública para estudar com seus amigos e muitas vezes, estudar sozinho, como também fazia em casa, onde tinha sua própria biblioteca.
Vygotsky tinha prazer apurado para leitura, segundo alguns estudiosos sobre sua vida, este prazer era alimentado pela oportunidade de aprendizado de outras línguas, tais como: alemão, latim, hebraico, francês e inglês, tendo acesso à informações variadas de diversos locais do mundo.
Passou pelos exames de nível primário e ginasial numa escola judaica privada, onde desenvolveu uma sensibilidade humanista através do teatro, literatura e filosofia. Pelas restrições da época, ingressou, não sem complicações, na Faculdade de Medicina, tendo inclinação pela área de humanas e letras, um mês mais tarde, ingressou na Faculdade de Direito. Em 1913 já era um psicólogo de renome, Vygotsky retornou a Faculdade de Medicina, como um modesto estudante de primeiro ano, preocupado com o substrato neuropsicológico das funções psicológicas.
Em 1917, ano da Revolução, Vygotsky gradua-se nas duas universidades onde estudava, dando início a uma intensa atividade científica e profissional nas áreas da estética, da arte, da psicologia e dos problemas relativos à educação e à pedagogia.
Em 1924, Vygotsky participa do segundo congresso de Psiconeurologia, versando sobre “Os métodos de pesquisa reflexológicos e psicológicos” contesta da necessidade de tomar a consciência como objeto de investigação de uma psicologia objetiva, ainda que esses termos parecessem inconciliáveis. A contar deste ano até o de sua morte, seu ritmo de produção intelectual foi excepcional, embora sofresse várias hospitalizações por causa de sua doença. Sua dedicação à pesquisa e liderança de jovens pesquisadores era extraordinária.
Concluiu sua tese de doutorado sobre Psicologia da Arte, sobressaltando a distinção entre funções psicológicas inferiores e superiores, colocando o papel crucial do instrumento de mediação no desempenho da constituição dessas funções superiores, ponderando particularmente os sistemas semióticos.
Em 1934, sua obra “Pensamento e Linguagem” contribuiu para provar experimentalmente que os significados das palavras evoluem na idade infantil e descrever as fases principais desse processo, como também para descobrir o curso de desenvolvimento dos conceitos científicos na criança, comparar sua evolução dos conceitos espontâneos e as leis destes processos, além de comprovar experimentalmente a natureza psicológica da fala interna e sua relação com o pensamento.
O contexto em que Vygotsky estava inserido era de grande riqueza intelectual e social. Como leitor prazeroso e científico, fora influenciado por pesquisadores da área da lingüística dentro de uma abordagem histórica, estudando a origem da linguagem e sua relação com o desenvolvimento do pensamento. Para tanto, lia as obras de Potebnya e Humolt, ambos russos, de Wagner, um especialista soviético em comportamento animal e humano, além de ler as concepções de Marx e Engels sobre a sociedade, o trabalho humano, o uso dos instrumentos, e a interação dialética entre o ser humano e a natureza que, no futuro, alicerçaram sua tese sobre o desenvolvimento humano enraizado na sociedade e na cultura. Lia também as composições poéticas de Tyuchev, Blok, Mandel'shtam e Pushkin, de escritores de ficção como Tolstoy e Dostoyevsky, Bely e Bunin e filósofos diversos como James e Spinoza, e sem dúvida, estudava as obras escritas por Freud, Hegel e Pavlov.
A vastidão de conhecimentos construídos no decorrer de sua vida enquanto garoto, adolescente e jovem, evidenciaram uma inclinação para sua vida científica e profissional caminhar para as premissas do método dialético, procurando identificar as mudanças qualitativas comportamentais que se dão no decorrer do desenvolvimento humano e sua relação com o contexto social.
De acordo com Rego:
É importante ressaltar que a preocupação principal de Vygotsky não era a de elaborar uma teoria do desenvolvimento infantil. Ele recorre à infância como forma de poder explicar o comportamento humano no geral, justificando que a necessidade do estudo da criança reside no fato de ela estar no centro da pré-história do desenvolvimento cultural devido ao surgimento do uso de instrumentos e da fala humana. (1995, p. 25)
Vygotsky, mesmo não tendo conseguido alcançar todas as suas metas, foi o primeiro psicólogo moderno a propor os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa.
No ano de 1932, suas obras foram muito criticadas na Rússia através do governo de Stalin, que as considerava como sendo "idealistas". Para Vygotsky, os seres humanos deveriam ser considerados pelo modo como criam seu ambiente, dando origem a novas formas de consciência. Isto, irritava as autoridades soviéticas, pois o viam como um profundo marxista que não se deixava submeter pelos dogmas impostos para ciência pelo stalinismo.
Suas publicações foram proibidas na União Soviética durante o período de 1936 a 1956 por causa do regime stalinista. Nos países ocidentais, quase não eram conhecidas. Em 1956, com a reedição soviética de seu livro "Pensamento e Linguagem" suas idéias começaram a ser expandidas. No Ocidente, surgiram em 1962 com a edição americana do mesmo livro e no Brasil, somente em 1984 com a publicação do livro "A formação social da mente".
Muitos dos escritos de Vygotsky podem ser encontrados em espanhol, francês, italiano, inglês e português. Seu pensamento tem sido muito discutido e valorizado, dando origem a estudos importantes que visam  conhecimento e realização de pesquisas sobre seus postulados. Infelizmente, os países ocidentais ainda não tiveram acesso à totalidade sua produção intelectual, pois começaram a ser traduzidos do russo a pouco tempo e vários de seus escritos, não foram publicados nem mesmo em seu próprio idioma.

2.Vygotsky em seu contexto histórico-cultural
Sua carreira como psicólogo iniciou-se após a Revolução Russa de 1917, todavia, já havia contribuído para crítica literária com vários ensaios. Nesta época predominava a psicologia experimental de Wilheim Wundt e o pragmatismo americano representado por William James. Na área da ciência, estavam sendo discutidos durante este período as teorias e ensinamentos propostos por Pavlov, Bekhterev e Watson, adeptos das teorias comportamentais e Wertheimer, Kohler, Koffka e Lewin, fundadores do movimento da Gestalt na psicologia.
As teorias da psicologia européia abriram os primeiros caminhos para Vygotsky iniciar a sua própria teoria. As condições em que se encontrava a sociedade russa geravam problemas diversos, com os quais ele se defrontava e buscava caminhos para construir sua ponte rumo a uma teoria de base marxista, onde o desenvolvimento do funcionamento intelectual do ser humano estivesse evidenciado.
Antes de Vygotsky subir no palco da psicologia trazendo inquietações e alterações em todo o seu cenário, o estudo da natureza humana era atribuído à filosofia e, portanto, havia sido desenvolvida uma concepção empirista da mente[1], enfatizando a origem das idéias como advindas de sensações produzidas através de estimulação ambiental, procurando descrever quais seriam as normas levantadas para associar sensações simples na produção de idéias mais complexas.
Já os seguidores de Kant, diziam que as concepções sobre tempo e espaço e os conceitos de quantidade, qualidade e relação tinham sua origem na mente humana e não poderiam decompor-se em elementos mais simples. Desta forma, os dois grupos de tradição filosófica mantinham-se constantes, tendo como fundamento o estudo científico do homem restrito ao seu corpo físico, conforme fora afirmado por René Descartes.
Ao final do século XIX, três livros constituíram o pensamento psicológico da época. O primeiro, escrito por Darwin, "A origem das espécies", argumentava a favor da essencial continuidade entre o homem e outros animais. O segundo livro, escrito por Fechner, "Die psychophysik", descrevia de forma detalhada a relação entre as variações de eventos físicos que eram determinados e as respostas psíquicas verbalmente expressadas, propondo uma descrição quantitativa do conteúdo da mente humana. O terceiro livro fora escrito por Sechenov, intitulado "Reflexos do cérebro". Este, contribuiu para a compreensão dos reflexos sensorimotores simples com o uso da técnica de preparação neuromuscular isolada como sendo semelhantes aos do sistema nervoso central dos organismos intactos. Seus primeiros estudos foram em rãs para depois levantarem as mesmas hipóteses de ocorrência em seres humanos.
Esses três pesquisadores trouxeram questões centrais para a psicologia, referentes as relações comportamentais entre o ser humano e o animal, sobre os eventos ambientais e os mentais e questões a respeito dos processos fisiológicos e psicológicos, contribuindo para a formulação de outras teorias.
Já no século XX, no início da Primeira Guerra Mundial os estudos introspectivos dos processos conscientes humanos foram questionados por diversos psicólogos dos Estados Unidos e da Rússia, rejeitando o estudo da consciência em prol do estudo do comportamento. A descrição do conteúdo da consciência também sofria contrapontos por psicólogos seguidores de Wundt e dos behavioristas sobre a validade de analisar os processos psicológicos em seus fundamentos principais. Tal movimento foi conhecido como a psicologia da Gestalt, demonstrando muitos fenômenos intelectuais e perceptuais como não podendo ser explicados por um postulado de elementos básicos da consciência e nem pelas teorias do comportamento fundamentadas na unidade estímulo-resposta. Eles rejeitavam a possibilidade da explicação de processos mais complexos por meio de processos psicológicos mais simples.
Em 1924, um ano após o primeiro congresso soviético de neuropsicologia e o conflito provocado por Kornilov que submetia todos os ramos da psicologia a uma estrutura marxista, fazendo uso das reações comportametais como elementos básicos e a controvérsia de Chelpanov, um adepto a psicologia introspectiva de Wundt e contra as teorias comportamentais, que atribuía ao marxismo um papel restrito na psicologia, concordando que as teorias marxistas poderiam auxiliar na organização social da mente, mas nunca nas propriedades da consciência individual, levanta-se Vygotsky, no segundo congresso de neuropsicologia  para palestrar sobre "Consciência como um objeto da Psicologia do Comportamento", onde nenhuma das duas teorias propostas seriam privilegiadas, mas sim uma proposta teórica abrangente que possibilitasse a descrição e explicação das funções psicológicas superiores para as ciências naturais.  
Segundo Vygotsky, seria preciso identificar quais seriam os mecanismos cerebrais subjacentes a uma determinada função e a explicação minuciosa de sua história ao longo do desenvolvimento, objetivando o estabelecimento de relações entre formas simples e complexas do que aparentava ser um mesmo comportamento, devendo especificar qual seria o contexto social no qual se deu o desenvolvimento de tal comportamento.
Sua crítica contra a noção de que a compreensão de funções psicológicas superiores humanas poderia ser alcançada pela multiplicação e complicação dos fundamentos derivados da psicologia animal que representavam uma combinação mecânica das leis de efeito estímulo-resposta e sobre as teorias afirmativas sobre as propriedades das funções intelectuais do adulto serem resultado único da maturação à espera oportunista de sua manifestação, enfatizavam as origens sociais da linguagem e do pensamento, sob influência dos sociólogos franceses, mas ao mesmo tempo, tornando-se o primeiro psicólogo moderno a sugerir que os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa, insistindo que as funções psicológicas são produto da atividade cerebral e propondo que tudo isso deveria ser compreendido sob uma ótica marxista da história da sociedade humana.
Vygotsky via o pensamento marxista como sendo valioso para a psicologia na solução dos paradoxos científicos fundamentais contemporâneos. Os métodos e princípios do materialismo dialético traziam, essencialmente, o estudo dos fenômenos como processos em movimento e em mudança, na perspectiva de se reconstruir a origem e o curso do desenvolvimento do comportamento e da consciência, caracterizando-se por meio de mudanças qualitativas e quantitativas. Assim, a abordagem de Vygotsky  privilegia o desenvolvimento, constituindo o método fundamental da ciência psicológica. 
Vygotsky em um olhar marxista, percebe que as transformações históricas na sociedade e na vida material produzem transformações na natureza humana, em sua consciência e comportamento e, por isso, procura fazer correlações entre esta proposta e as questões psicológicas concretas através de concepções sobre o trabalho humano e o uso de instrumentos como meios pelos quais o homem pode transformar a natureza e a si mesmo.
Desta forma, ele explora o conceito de instrumentos[2] e situa a natureza como servidora dos propósitos do homem que a domina, distinguindo, finalmente, o homem dos outros animais e elaborando seu conceito de mediação na interação homem-ambiente pelo uso de signos, ao invés de instrumentos.
Os sistemas de signos[3] e o sistema de instrumentos são criados pelos homens, enquanto sociedades, no decurso da história humana, alterando a forma social e o nível de seu desenvolvimento cultural, provocando transformações comportamentais e ligações entre as formas iniciais e tardias do desenvolvimento individual. Portanto, para ele, o mecanismo de mudança individual no decorrer do desenvolvimento tem sua raiz na sociedade e na cultura, conforme encontra-se escrito no aspecto social-organizacional nas obras de Marx e Engels.
Vygotsky também generaliza sua concepção a respeito da origem das funções psicológicas superiores de maneira a revelar a relação entre sua natureza mediada e a concepção materialista dialética de mudança histórica, procurando contribuir para a elaboração de uma teoria com princípios metodológicos básicos para a psicologia.
Na década de 1920, na União Soviética, Blonsky já havia assumido a posição de que a compreensão das funções mentais complexas necessitava de uma análise do desenvolvimento e, Vygotsky fez uso dessa noção, de que o comportamento só poderia ser compreendido como história do comportamento e de que as atividades tecnológicas de um povo são a chave da compreensão de seu psicológico.
Nos anos trinta, através das publicações de discussões em torno da questão da origem da linguagem e sobre o desenvolvimento do pensamento, a abordagem de Vygotsky sobre a cognição humana ficou enfatizada  por causa das condições sócio-políticas em que se encontrava a União Soviética, onde a ciência era valorizada pela sociedade na esperança de trazer soluções aos problemas sociais e econômicos a um povo dependente das exigências de seu governo. Para ele, a necessidade de se produzir uma psicologia relevante para a educação e para a medicina é um alvo particular, já instalado em sua história.
Preocupou-se em cuidar dos problemas da prática educacional, principalmente voltados para a educação de deficientes mentais e físicos. Foi um dos fundadores do Instituto de Estudo das deficiências, em Moscou, do qual nunca se afastou, fazendo estudos e pesquisa sobre os problemas médicos voltados para a cegueira congênita, a afasia e o retardamento mental de nível severo, aproveitando a oportunidade para estudar e compreender os processos mentais humanos e para estabelecer programas de tratamento e reabilitação, de acordo com sua visão teórica global, na tentativa de desenvolver seu trabalho em uma sociedade que visasse erradicar o analfabetismo e criar programas de educação que explorassem e aumentassem as potencialidades existentes em cada criança.
Suas idéias ligadas e formuladas dentro de uma ótica marxista envolveram-no em várias discussões e conflitos durante o término dos anos 20 e o início dos anos 30. Ele também visava reformar a pedologia[4] que na época fazia uso dos testes de Q.I., evidenciados na Europa Ocidental. Por esta causa, foi acusado de ser adepto às aplicações de testes psicológicos, acusação esta que, segundo vários estudiosos de sua teoria, é equívoca e injusta.
As idéias de Vygotsky continuaram e continuam sendo discutidas em todo o mundo mesmo após sua morte, influenciado a pesquisa relacionada com os processos cognitivos, seu desenvolvimento e sua desintegração, de modo que contribuiu de forma extraordinária para pensamento soviético e contribui imensamente para o nosso tempo e desenvolvimento sobre o pensamento humano.<![endif]>

3.
Idéias centrais da teoria sócio-histórica
A formulação central da teoria sócio-histórica se refere, aos processos psicológicos superiores que se originam na vida social, na participação do sujeito em atividades compartilhadas com os outros. Isto implica uma concepção particular das origens do psiquismo e critérios específicos de como compreender os processos de desenvolvimento. Isto é, análise do desenvolvimento dos processos psicológicos superiores a partir da internalização de práticas sociais específicas.
Os processos psicológicos superiores são especificamente humanos, enquanto histórica e socialmente constituídos. Em geral, estão constituídos na vida social para serem específicos dos seres humanos. Regulam a ação em função de um controle voluntário, superando sua dependência e controle por parte do meio ambiente.
Dos trabalhos de Vygotsky parece se desprender uma nova distinção no interior dos processos psicológicos superiores (PPS)  rudimentares e avançados ou superiores.
Nos PPS rudimentares, Vygotsky situa a linguagem oral, enquanto processo psicológico superior adquirido na vida social e pela totalidade da espécie. Sua aquisição, enquanto PPS, se produz por internalização de atividades socialmente organizadas, como a fala. Ao que parece, ficam incluídas as que parecem possuir certo atributo de “universidade”, estando ligadas ao constitutivo do “humano”.
Já nos PPS avançados é feito segundo dois vetores relacionados e indissociáveis, mas ligado a suas características ou propriedades e outros a seu modo de formação.
O primeiro, se caracteriza por possuir um grau de significação maior de uso dos instrumentos de mediação com independência do contexto e de regulação voluntária e realização consciente.
O segundo discrimina PPS rudimentares e avançados através de seu modo de formação, nos processos instituídos de socialização específicos, como nos processos de escolarização. O domínio da leitura-escrita não se produz habitualmente dentro dos processos de socialização “genéricos”, como no caso da fala.
Os processos psicológicos elementares, regulados por mecanismos biológicos ou ligados à linha do desenvolvimento natural seriam compartilhados com outras espécies superiores, trata-se de formas elementares de memorização, atividades senso-perceptiva, motivação.
O bebê humano nasce no seio de uma cultura, sua formação progressiva como sujeito cultural conta com as condições habilitantes necessárias, mas não suficientes, dos dispositivos e processos evolutivos de natureza biológica. Esta espécie de dispositivos básicos para aprendizagem.
No desenvolvimento da criança, a linha natural de desenvolvimento se assemelha aos processos de maturação e crescimento, enquanto que a linha “cultural” trata dos processos de apropriação e domínio dos recursos e instrumentos que a cultura dispõe. Transcorre sob condições de mudanças dinâmicas no organismo. O desenvolvimento cultural se sobrepõe aos processos de crescimento, maturação e desenvolvimento orgânico da criança. Forma uma unidade com tais processos, somente mediante um processo de abstração podemos separar um conjunto de outro.
No desenvolvimento cultural da criança, aparece duas vezes: primeiro, em nível social entre pessoas (interpsicológica), e depois individual no interior da própria criança (intrapsicológica). Aplicando à atenção voluntária, à memória lógica e à formação de conceitos, todas as funções psicológicas se originam como relações entre seres humanos.
A internalização das formas culturais de conduta implica a reconstrução da atividade psicológica sobre a base das operações com signos.
Os processos de inteorização seriam os criadores de tal espaço interno, criadora da consciência e não como a recepção na consciência de conteúdos externos.
Deve-se notar que os processos de internalização, aludem à constituição dos PPS e se relacionam tanto com aspectos de desenvolvimento cognitivo como da personalidade do sujeito, ou da atividade psicológica geral; põe-se em jogo tanto o desenvolvimento do pensamento, a capacidade de argumentação, como desenvolvimento dos sentimentos e da vontade. A internalização não é um processo de cópia da realidade externa num plano interior existente, é um processo em cujo seio se desenvolve um plano interno da consciência.
Os processos de interiorização de Vygotsky remeteriam na verdade à atividade instrumental. Na concepção que desenvolve a inter-relação entre os aspectos centrais de suas proposições, somando os instrumentos psicológicos de mediação semiótica.
Os instrumentos de mediação, ou melhor, apropriação ou domínio destes, são uma fonte de desenvolvimento.
A linguagem aparece orientada centralmente para “outro”, mas seu poderoso efeito na formação subjetiva e no desenvolvimento cognitivo está em sua propriedade de poder orientar-se, por sua vez, para o próprio sujeito, para si mesmo. A linguagem incide sobre o sujeito, no começo, por este ser interpelado como sujeito falante, ou potencialmente falante. A atividade da criança é, muito cedo, significada pelo meio ambiente adulto, pelos “sistemas de conduta social” nos quais sua vida está implicada.
A linguagem pode, dobrar-se sobre o sujeito e, de acordo com sua função sobre si mesma, pode adotar uma função reguladora do próprio comportamento.
Os instrumentos de mediação não cumprem um papel auxiliar ou facilitador da ação, mas que, por sua inclusão nela, produzem uma mudança em sua própria estrutura dando lugar a uma nova ação. Se relaciona com a constituição dos níveis superiores de funções como a memória e a atenção. O desenvolvimento da memória contínua, através da organização lógica e em virtude de seu uso da linguagem, mas reorganizada como produto de uma restruturação de conjunto das relações genéticas que se estabelecem entre memória e pensamento.
Vygotsky atribuía um papel central aos instrumentos de natureza semiótica, dentro destes, se ocupou centralmente de fala como via principal para a análise das raízes genéticas do pensamento e da consciência.

4.Explorando suas idéias
A primeira é direcionada à relação indivíduo e sociedade, como sendo resultado da interação dialética do homem e seu meio sócio-cultural, transformando o seu meio para suprir suas necessidades básicas ao mesmo tempo que transforma a si próprio. Assim, o homem modifica o seu ambiente através de seu comportamento que irá modificar-se no futuro por causa da influência da modificação ambiental. Nota-se aqui, a integração dos aspectos biológicos e sociais do indivíduo, devido a interação dos fatores biológicos que constituem fisicamente o "Homo sapiens" com os fatores culturais evoluintes por meio da história humana.
A segunda idéia decorre da primeira, referindo-se a origem cultural das funções psíquicas que se originam nas relações do indivíduo e seu contexto social e cultural, não julgando o desenvolvimento mental humano como sendo imutável e universal, passivo ou independente do desenvolvimento histórico e social da vida humana. Assim, a cultura é parte da natureza humana.
A terceira idéia refere-se à base biológica de modo como funciona o cérebro, sendo este, visto como o órgão principal da atividade mental e produto de longa evolução. De acordo com Vygotsky, esta base material que o indivíduo traz consigo desde o nascimento não é um sistema fixo e imutável, mas aberto, de grande plasticidade, com modos funcionais moldados no decorrer da história da espécie e do desenvolvimento individual, podendo servir a novas funções, criadas pelo homem, sem precisar causar transformações na estrutura física do órgão.
A quarta idéia  tem a ver com o princípio da mediação presente em toda a atividade humana, realizado por meio de instrumentos técnicos e sistemas de signos construídos durante a história. Um dos mais importantes signos mediadores é linguagem, carregando em si os conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana.
Desta forma, pode compreender que a relação do homem com o mundo é indireta, pois ela mediada por "ferramentas auxiliares" criadas pela espécie humana para as atividades humanas. O princípio da mediação é muito importante e fundamental na perspectiva sócio-histórica.
A quinta idéia diz sobre a análise psicológica ser capaz de conservar as características principais dos processos psicológicos humanos, baseando-se na idéia de que os processos psicológicos complexos são diferentes dos mecanismos mais simples, não sendo possível ser reduzidos à cadeia de reflexos. Os modos funcionais mais complexos se desenvolvem num processo histórico, sendo possível sua explicação e descrição.

5.Psiquismo animal e psiquismo humano
Com o propósito de  conhecer a origem das características psicológicas humanas, Vygotsky começou a pesquisar e a estudar o comportamento e o psiquismo dos animais mamíferos superiores mais próximos da espécie humana, como é o chimpanzé, objetivando a identificação das principais diferenças e/ou semelhanças com o ser humano. Tal comparação entre os processos mentais pode ser vista em toda a sua obra. Basicamente, ele identificou três características no comportamento do animal que são diferenciáveis do psiquismo humano, são elas:
Primeira característica - todo o comportamento animal mantém sua ligação com os motivos biológicos, sendo instintiva para o suprimento de suas necessidades biológicas, permanecendo dentro desses limites com a natureza. Tanto a percepção do mundo pelo animal como sua forma de relacionar-se são determinadas por suas características inatas. 
Já o ser humano, não se firma em inclinações biológicas, mas sua ação é motivada por complexas necessidades como: aquisição de novos conhecimentos, a necessidade de se comunicar, de executar seu papel na sociedade, de ser coerente com seus princípios e valores. Seu comportamento é independente dos motivos biológicos. Isto, por causa de suas convicções políticas ou religiosas, através de seu controle intencional de seu comportamento, não se sujeitando as necessidades puramente biológicas.
Segunda característica - o comportamento animal é forçosamente determinado por estímulos imediatamente perceptíveis ou por experiência vivida. Ele não é capaz de fazer relações, planejá-las ou abstraí-las, ele dependente de suas experiências anteriores.
Contudo, o ser humano é capaz de fazer abstrações, relações, reconhecimento de causas, previsões de acontecimentos, reflexão, interpretação e então, tomar suas próprias decisões, independente das condições do momento e do espaço presentes. O ser humano não apenas vive em um mundo de impressões imediatas, mas vive no universo dos conceitos abstratos, dispondo de conceitos sensoriais e conceitos racionais, possuindo capacidade de penetração profunda na essência das coisas, dando-se deste modo, um enorme salto no processo de conhecimento que vai desde o sensorial até o racional em toda a sua história humana.
Terceira característica - o homem tem diferentes fontes de comportamento. O animal tem fontes de comportamento limitadas pela hereditariedade da espécie e pela experiência imediata e individual, não transmitindo sua experiência, nem assimilando experiências alheias de gerações anteriores e sendo determinadas pelas leis da evolução biológica.
No entanto, o homem, além das definições hereditárias e da experiência individual, possui a assimilação da experiência de toda a humanidade, como fonte responsável por grande parte de seus conhecimentos, habilidades e procedimentos comportamentais, que foram acumulados durante o processo da história social e transmitida no processo de aprendizagem, sendo submetido às leis do desenvolvimento sócio-histórico.
As características do funcionamento psicológico humano são construídas no decorrer da vida do indivíduo por meio de um processo de interação do homem e seu meio físico e social, permitindo a apropriação da cultura elaborada pelas outras gerações ao longo da história. Assim, a origem das atividades psicológicas mais complexas devem ser buscadas nas relações sociais do indivíduo com seu ambiente, não sendo ele, apenas um produto de seu contexto social, mas também um agente ativo na criação de tal contexto.

6.
Mediação simbólica
Os elementos bases responsáveis pela mediação que caracteriza a relação do homem com o mundo e com o outro, desenvolvendo suas funções psicológicas superiores são o instrumento e o signo.
O instrumento tem a função de regular as ações sobre os objetos e o signo regula as ações sobre o psiquismo das pessoas, podendo ser considerado como aquilo que representa alguma coisa diferente de si mesmo, substituindo e expressando eventos, idéias, situações e servindo como auxílio da memória e da atenção humana.
O uso de instrumentos e dos signos estão ligados no decorrer da evolução da espécie humana e do desenvolvimento de cada indivíduo e é por esta causa que em suas pesquisas, Vygotsky tem o objetivo de investigar o papel mediador dos instrumentos e signos na atividade psicológica e as transformações ocorrentes ao longo do desenvolvimento do indivíduo.
Ele procura fazer uma análise da função mediadora presente nos instrumentos elaborados para as ações da atividade humana. Assim, os homem não apenas criam seus instrumentos para a realização de tarefas específicas, mas também têm a capacidade de conservá-los para próximas utilizações, são capazes de preservar e transmitir suas funções para outras pessoas e de aperfeiçoar os antigos instrumentos ou produzir outros novos.
Através dos signos, o homem tem o poder de controlar voluntariamente sua atividade psicológica e realizar a ampliação de sua capacidade de atenção, memória e acúmulo de informações.
Para ele, a linguagem é compreendida como um sistema simbólico fundamental em todos os grupos humanos, elaborado no decorrer da histórica social, que os organiza em estruturas complexas, desempenhando um papel indispensável na formação das características psicológicas humanas. É por intermédio da linguagem que se é possível designar os objetos do mundo externo, as ações, as qualidade dos objetos e as referentes às relações entre os objetos.
Com o surgir da linguagem, três alterações são consideradas fundamentais nos processos psíquicos do homem:
A primeira é relacionada ao fato de que a linguagem permite o contato com os objetos do mundo externo, embora possam estar ausentes.
A segunda refere-se ao processo de abstração e generalização que ela permite. O homem é capaz de analisar, abstrair e generalizar as diversas características dos objetos, eventos e situações presentes em sua realidade, designando elementos presentes e fornecendo conceitos e maneiras de organizar o real em categorias conceituais.
A terceira associa-se à função de comunicação entre os indivíduos, garantindo a preservação, transmissão e assimilação de informações e experiências acumuladas pelo homem no decorrer da história. A linguagem é um sistema de signos que permite o intercâmbio social entre os homens, indicando significados específicos e fornecendo significados precisos que possibilitam a existência de comunicação entre os homens.
Através dessas idéias, Vygotsky procurou observar as leis básicas que caracterizam a estrutura e o desenvolvimento das operações com signos da criança, fazendo sua relação com a memória e acreditando que a real essência da memória humana está no fato de os seres humanos terem a capacidade de se lembrarem de fatos por meio do uso de signos. Para Vygotsky, estava claro que sua pesquisa tinha relevada coerência com a idéia de que a internalização dos sistemas de signos produzidos culturalmente provocavam transformações importantes no comportamento humano.
Ele não vê a cultura como algo estático, já pronto, mas como um tipo de "palco de negociações" no qual seus membros se encontram em constante movimento de recriação  e reinterpretação de informações, conceitos e significados.  A internalização das práticas culturais assume enfático papel, constituindo o desenvolvimento humano.

7.
Pensamento e Linguagem
Para Vygotsky, a conquista da linguagem significa um importante acontecimento no desenvolvimento do homem, pois é uma capacidade especificamente humana que possibilita as crianças a providenciarem instrumentos que auxiliem na resolução de tarefas difíceis, na superação de ações impulsivas, no planejamento para s solução de uma determinada situação antes de sua execução como também auxilia no controle de seu próprio comportamento. Os signos e palavras são um meio de contato social para as crianças se comunicarem com outras pessoas, tornando-se a base nova e superior de atividade para expressar o pensamento como também organizar tal pensamento.
O desenvolvimento da linguagem é provocado pela necessidade de comunicação. Assim, desde a fala mais primitiva da criança, como o choro, riso, balbucio e outras expressões significantes são consideradas como formas de linguagem para a fala social, pois antes da criança aprender a falar, ela faz uso de uma inteligência prática para agir em seu ambiente e solucionar seus problemas, inclusive, utilizando instrumentos intermediários, mesmo sem a mediação da linguagem. Segundo Vygotsky, esse estágio recebe o nome de pré-lingüístico do desenvolvimento do pensamento.
É na interação da criança com o adulto que o pensamento e a linguagem são associadas, por meio do aprendizado desse instrumento do pensamento como um meio de comunicação para, conseqüentemente, o pensamento transformar-se verbal e predominante na atividade psicológica humana e a fala racional.
Ele também observou que, embora este processo seja dinâmico, passa por estágios, tendo a fala a evolução de exterior para egocêntrica e, da egocêntrica, para uma fala interior. A fala egocêntrica pode ser compreendida como um estágio de transição entre a fala exterior e a fala interior.
A princípio, a criança faz uso da fala como meio de comunicação e contato com outras pessoas (discurso socializado), aos poucos, ela  é internalizada e a criança passa para si mesma a função de solucionar um problema ou questão (discurso interior). Assim, além das funções emocionais e comunicativas, a  fala passa a ter a função de planejadora, precedendo a ação e auxiliando em um plano já concebido, porém ainda não executado, permitindo a criança ir além das experiências imediatas para a realização de operações psicológicas mais complexas.
Vygotsky  também menciona a fala intermediária que tem a função de fazer a transição entre o discurso socializado e o interior. Sua principal característica é acompanhar a ação e se dirigir ao próprio sujeito da ação. Neste estágio, a criança dialoga consigo mesma, planejando e solucionando situações em voz audível.
Com o domínio da linguagem há transformações significantes na criança em sua modo de relacionar-se com seu meio, possibilitando novas formas de comunicação com as pessoas e organização de sua maneira de agir e pensar.
 Outro modo de aquisição de formas mais complexas é através do aprendizado da linguagem escrita, representando um grande salto no desenvolvimento do indivíduo. Este processo ativa uma fase de desenvolvimento dos processos psicointelectuais, originando uma transformação importante das características gerais da criança e fornecendo um novo instrumento de pensamento através da capacidade de memorizar e registrar informações.
A aquisição da linguagem escrita propicia diferentes modos de organização da ação e outro tipo de acesso ao patrimônio da cultura humana, promovendo formas diversificadas e mais abstratas de pensar, de interagir com as pessoas e com o conhecimento.
Olhando por este prisma, fica claro que o aprendizado da escrita não é somente uma habilidade motora e mecânica, mas sim, um processo complexo, construído no decorrer da história humana, constituindo um sistema de símbolos que funcionam como designações dos símbolos verbais. Sua compreensão se dá, primeiro, por meio da linguagem falada que aos poucos é reduzida, desaparecendo como elo intermediário.

8.Zona de desenvolvimento real e proximal
O desenvolvimento do ser humano, para Vygotsky, é dependente do aprendizado que este realiza em certo grupo cultural através de sua interação com outras pessoas. Este aprendizado permitirá e acionará o processo de desenvolvimento, sendo um fator necessário e universal para que as características psicológicas, típicas do ser humano e culturalmente organizadas, se desenvolvam.
Identifica-se aqui, dois níveis de desenvolvimento referente às conquistas já alcançadas: nível de desenvolvimento real e nível de desenvolvimento potencial.
O nível de desenvolvimento real é relativo as conquistas que já estão consolidadas na criança, coisas que ela já consegue fazer sozinha sem o auxílio de outra pessoa.
O nível de desenvolvimento potencial também é relativo ao que a criança tem capacidade para fazer, todavia, faz com a ajuda de outra pessoa. Ela realiza suas tarefas e soluciona problemas através do diálogo, colaboração, imitação e pistas que lhe são fornecidas. Ele é mais indicativo do desenvolvimento mental do que aquilo que a criança consegue fazer sozinha.
Este espaço entre aquilo que a criança é capaz de fazer sozinha e aquilo que ela ainda precisa de auxílio é denominado por Vygotsky de "zona de desenvolvimento potencial ou proximal". Assim, seu desenvolvimento é visto de modo prospectivo, definindo suas funções ainda imaturas que se encontram em processo de maturação, presentes em estado embrionário.
O aprendizado é o responsável pela criação da zona de desenvolvimento proximal pela interação com outras pessoas, sendo a criança capaz de movimentar vários processos de desenvolvimento que não ocorreriam sem o auxílio externo. Portanto, o que hoje é a zona de desenvolvimento proximal será no futuro o nível de desenvolvimento real.
O conceito de zona de desenvolvimento proximal permite a compreensão da dinâmica interna do desenvolvimento individual, possibilitando a análise dos limites do que está além da zona de desenvolvimento proximal da criança e daquilo que ela necessita através de interferência de outras pessoas.
De acordo com Vygotsky, o aprendizado de modo geral e o aprendizado escolar se encontram interligados ao desenvolvimento da criança, portanto, ao desenvolvimento do sistema nervoso central possibilitando e estimulando os processos de aprendizagem.

9.
O método utilizado por Vygotsky
A perspectiva de Vygotsky abrange tal dimensão social do desenvolvimento humano e pressupõe de modo tão convicto que o ser humano constitui-se enquanto homem em sua relação com o outro, que fica claro o papel da cultura enquanto parte da natureza humana dentro de um processo histórico que ao longo do desenvolvimento da espécie e do indivíduo, dará forma ao funcionamento psicológico do homem.
O princípio orientador de sua abordagem é a dimensão sócio-histórica do psiquismo e como as reações naturais de resposta aos estímulos são biologicamente herdadas, entrelaçando-se, interativamente, aos processos culturalmente organizados, há transformações qualitativas nos modos de ação, relação e representação do ser humano. Deste modo, é possível se dizer que cada indivíduo aprende a ser homem.
Para tanto, a relação homem-meio será sempre uma relação mediada por produtos culturais humanos, como o instrumento e o signo e pelo "outro", num oferecimento contínuo de caminhos alternativos para a solução da situação problema.
Contudo, sua idéia de que a intervenção por meio de outras pessoas seja fundamental para o desenvolvimento processual do indivíduo não pode ser entendida como uma proposta de caráter autoritário, de conduta postulada a um ensino de característica "tradicional", onde o professor fala e o aluno absorve o conhecimento transmitido.
Vygotsky quase não apresenta dados estatísticos referentes a sua pesquisa. sua preocupação estava em abrir novas linhas de investigação. Sua concepção diferenciava-se das que eram propostas pelos psicólogos americanos e seu propósito na pesquisa não era fazer uso do experimento como determinante das condições que controlam o comportamento e nem tão pouco ser especulativo. Seus princípios derivam de sua teoria da natureza dos processos psicológicos superiores e do difícil trabalho de explicar cientificamente em torno da psicologia.
Para ele, o importante era comprovar que o experimento deveria desvendar os processos encobertos pelo comportamento habitual, devendo oferecer o máximo de oportunidades para que o indivíduo experimental se engaje nas mais diversas atividades que possam ser observadas e não somente controladas.
A noção básica de sua teoria e do uso da mediação enquanto termo conceitualizado e método, está fundamentada na não associação estímulo-resposta do aprendizado, mas nas formas superiores do comportamento humano, o indivíduo modifica  a circunstância de estímulo como uma parte do processo de resposta a ela, estruturando essa atividade produtora do comportamento humano como base do termo mediação.
Seu método experimental alinha-se com os métodos históricos propostos pelas ciências sociais, procurando explicar o progresso da consciência e do intelecto do ser humano, fazendo parte desse processo, a história da cultura e da sociedade juntamente com a história da criança.


CONCLUSÃO
Apesar da profundidade da teoria desenvolvida por Vygotsky que causou rupturas nas teorias que eram divulgadas e aceitas pela psicologia expandida em sua época e das transformações relacionadas ao conceito existente sobre as funções psicológicas mentais, a dificuldade do acesso à totalidade de seus trabalhos prejudicam e impedem um conhecimento mais profundo de seu pensamento.
Muitos de seus escritos foram escritos no idioma russo e não chegaram a ser publicados. Há mais obras suas já traduzidas para o inglês, francês, espanhol e italiano, sendo que em maior número, são encontradas em seu idioma e no alemão. Já para o português, a divulgação e publicação estão em menor grau.
Nos últimos anos, seu pensamento tem abrangido a educação de vários países, inclusive no Brasil. Percebe-se que seus temas mais divulgados se referem à dimensão cognitiva, dedicado ao estudo do aspecto intelectual do indivíduo com uma grande preocupação em integrar e analisar de maneira dialética os aspectos cognitivos e afetivos do funcionamento psicológico humano, concebendo o homem como um ser que pensa, raciocina, deduz e abstrai, mas também como um indivíduo que sente, se emociona, deseja, imagina e se sensibiliza.
Sua idéia de que aquilo que a criança é capaz de fazer hoje com a ajuda de alguém poderá ser realizado futuramente por si mesma é coerente com toda a estrutura de sua construção teórica sobre a funções psicológicas humanas., envolvendo seu conceito de zona de desenvolvimento proximal e real.
Enfim, não se pode negar que Vygotsky construiu sua teoria, fornecendo tanto à psicologia como à educação, contribuições originais e de maior qualidade, sugerindo um novo paradigma que possibilita olhar a criança de um modo diferente a partir de uma interação e mediação constantes em todo o seu processo de desenvolvimento e ensino-aprendizagem, prevendo uma intervenção na realidade social na qual ela se encontra.
Obviamente, Vygotsky não construiu uma teoria com respostas para todas as questões suscitadas no cotidiano, mas contribuiu imensamente procurando caminhos que auxiliassem na resolução de vários problemas existentes naquela época com os quais continuamos a nos deparar, mesmo vivendo em outra época e em realidades diferentes de seu país, porém, com seres humanos que têm basicamente as mesmas características, constituições orgânicas, desejos, sonhos, etc. 


REFERÊNCIAS
CRUZ, M. N. & FONTANA, R. A. C. Psicologia e trabalho pedagógico. Campinas, 1997.
OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: alguns equívocos na interpretação de seu pensamento. Caderno de Pesquisa, São Paulo: n.º 81, p. 67-74, maio de 1992.
REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
TAILLE, Y., KOHL, M. O. & DANTAS, H. Piaget, Vygotsky e Wallon. São Paulo: Summus, 1992.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. Trad. Grupo de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos - Departamento de Ciências Biomédicas - USP. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

[1] Concepção desenvolvida na Inglaterra por John Locke e seus seguidores durante a segunda metade do século XIX.
[2]  Busca referências e antecedentes nas concepções de Engels quando especifica a mão como um instrumento implicante na atividade humana específica, transformando a natureza e a si mesmo.
[3] Os signos seriam: a linguagem, a escrita e o sistema de números).
[4] Termo que pode ser traduzido por "psicologia educacional".

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